Sem qualquer sombra de dúvida essas duas medidas constituem importantes estratégias e táticas que devem ser utilizadas na perspectiva de construir uma nova relação entre policiais e jovens. Não obstante, à guisa de estimular a reflexão sobre a temática ouso traduzir duas citações de Rodriguez extraídas do trabalho elaborado por Roux: “A violência é uma adulteração das relações humanas como produto de instituições sociais - a família, a escola, grupos de convivência, as prisões, a polícia, as instituições que oferecem serviços - que a permitem, geram ou recriam, quando se distorcem. Muitos entre aqueles que realizam atos violentos, se vêem impulsionados, estimulados, seduzidos e obrigado a cometê-los. De algum modo foram instrumentalizados. Não foram eles que elegeram a violência; foram eleitos por ela”. Outra citação: “Uma criança ou um jovem violento - enfatiza o autor - são personagens alterados por interferências em seu desenvolvimento normal ou que foram condicionados para recriar a violência. Os jovens desejam afirmar sua identidade como pessoas e o modelo que a sociedade oferece é o consumista. Querem ser reconhecidos como indivíduos e a sociedade os torna anônimos ou os registra como perigo; buscam diversão e a elas são oferecidos espetáculos televisados de violência e armas, primeiro como brincadeira e depois como jogos mortais. Reclamam um ambiente saudável e a eles se concede um ambiente de privações, exclusão e violência”.
Na tentativa de agregar valor as medidas policiais apresentadas, a partir dessas duas citações, me parece importante, conveninente e oportuno destacar dois aspectos de extrema relevância: o primeiro refere-se a complexidade do problema. Independentemente da adoção de medidas pró-ativas por parte da Polícia é indispensável pensar a questão de forma sistêmica e integrada, ou seja, outros atores sociais e forças vivas da sociedade devem estar engajados no enfrentamento positivo da delinquência juvenil. Nesse contexto, família, escola, grupos de convivência social, igreja, polícia, organizações governamentais e não governamentais, etc, são faces de uma mesma moeda.
A segunda citação nos remete às razões etiológicas da delinquência juvenil, sugerindo uma intervenção antecipada, sobretudo através de programas de prevenção primária. É de fundamental importância que os governos desenvolvam políticas públicas direcionadas a juventude. A questão da delinquência juvenil deve ser assumida pelos governos como questão estratégica de Estado. O futuro de uma nação somente poderá ser minimamente projetado a partir do momento em que o Estado for capaz de garantir ao jovem - no âmbito do processo que compreende desde o momento da concepção, passando pela geração e pelo desenvolvimento infanto - juvenil -, as condicionantes estruturais de sociabilidade.